Metafilosofia I


June 19, 2022

Eu tenho pensado bastante sobre metafilosofia, de modo a decidir escrever algumas entradas no meu blog  como um processo de entender mais o que eu mesmo estou pensando. É um trabalho em progresso, de conteúdo ensaístico, então não estou especialmente preocupado (não agora, pelo menos) em desenvolver um pensamento abrangente e coerente. Com isso quero dizer que é de se esperar que algumas ideias que vou desenvolver aqui sejam revistas de acordo com o progresso dessas entradas. Também não estou preocupado com referenciar quem defenda isso ou aquilo, por isso falo do formato de ensaio—uma espécie de saída de preguiçoso no meu caso.

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Metafilosofia é uma investigação filosófica sobre a própria filosofia. Uma visão tradicionalista entende a filosofia como a disciplina que levanta perguntas do tipo 'o que é x?' e cujas respostas não podem ser desenvolvidas empiricamente. 'O que é o átomo?' é uma pergunta cuja resposta pode ser desenvolvida empiricamente, mas (pelo menos assim procede o argumento) 'o que é o componente último da matéria?' parece não ser uma pergunta do mesmo tipo. A mesma coisa para perguntas como 'o que é conhecer?', 'o que é a verdade?', 'o que é a justiça?' etc. Seriam essas as perguntas tipicamente filosóficas.

Eu não acho que essa visão esteja correta pelo simples fato de que eu não sei o que seria responder a uma pergunta de modo não empírico. Claro, eu posso não conduzir uma investigação científica para responder àquelas perguntas, isto é, posso não empregar as metodologias consagradas pelas ciências para responder, por exemplo, a pergunta sobre o que é a verdade. Mas ainda assim, ao responder a essa pergunta do conforto da minha casa, com base no meu raciocínio e na minha memória apenas, eu tenho certas experiências de raciocinar e de lembrar que me compelem a aceitar uma conclusão em detrimento de outras. A própria experiência de chegar a uma conclusão, por mais provisória que seja esta, é ela mesma, como o nome sugere, uma experiência. Escrever essa conclusão no papel ou na tela, falar em voz alta, explicar para alguém, submeter à revista mais apriorística disponível, ler as opiniões nem sempre pertinentes dos pareceristas—tudo isso  são experiências. Meu ponto é: não acredito que seja possível fugir das experiências. Se experiência implica conteúdo empírico, então a minha experiência de concluir que a verdade é isso ou aquilo é carregada de conteúdo empírico, mesmo quando minha resposta tenha sido desenvolvida do conforto da minha casa. E, é claro, essa resposta pode ser refutada por outras experiências de outras pessoas que chegam a conclusões diferentes. Então ela está aberta à revisão empírica.

Além disso, eu acho que um viés problemático da filosofia analítica (do qual sou herdeiro também, pro bem ou pro mal) é trabalhar com modelos simplificados para limpar o ruído que pode atrapalhar no entendimento do que se quer explicar. Por isso que filósofos analíticos falam em acreditar que p, lembrar que q, inferir que r de p e q  etc. como se fosse apenas isso que estivesse em jogo em um processo reflexivo típico da filosofia. Como com todos os modelos, a simplicidade ajuda porque permite maior tratabilidade, mas ela também pode prejudicar o entendimento do fenômeno  a ser explicado quando aquilo que é eliminado por ser considerado ruído, na verdade, faz parte daquilo que se quer explicar. É o caso das experiências que um modelo de mente filosófica como uma máquina de análise de conceitos desencorpada pensando solitariamente em sua casa quer eliminar da história. Mas também há outros fatores que são frequentemente ignorados em nome da simplicidade. Por exemplo, a razão pela qual eu me dedico a uma questão filosófica e não a outra é porque a primeira interassa pra mim—talvez ela importe para minha pesquisa, talvez seja algo que eu quero entender. Eu evito entrar nessa ou naquela discussão porque não me importam, ou porque estou sem tempo e o prazo é curto. Esses são elementos da minha subjetividade como filosófo que fazem parte da minha trajetória intelectual e afetam o desenvolvimento da minha filosofia. Ignorar isso, eu acho, é fazer uma caracterização muito enviesada do que é filosofia.

Há outra questão importante aqui. É um ponto passivo que responder a uma questão filosófica envolva a aplicação de certos conceitos e a mobilização de certas técnicas consagradas pela filosofia—ou pelo menos pela tradição na qual se está inserido. Porém, a história desses conceitos é a história da internalização de capacidades discurisvas que nós (como seres humanos) desenvolvemos ao longo dos anos. A história natural do pensamento é a história natural da fala, e a história natural do pensamento racional é a história natural da persuação do outro. Ou seja, há um elemento empírico na história do desenvolvimento da nossa capacidade de usar conceitos. As técnicas específicas que emprego na prática filosófica também foram refinadas pelos trabalhos de outros filosófos e de outras filósofas, trabalhos cujo estudo me ajudaram a pensar com mais clareza sobre isso ou aquilo. Não acho, novamente, que devamos excluir esses elementos em nome da simplicidade. 

Meu ponto, por enquanto, é apenas confrontar a visão tradicionalista da filosófica. Mas eu ainda não esbocei uma alternativa viável.

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