Giovanni Rolla


Philosopher

Como eu pesquiso filosofia


June 05, 2021

Alguns jovens pesquisadores já me perguntaram como eu pesquiso filosofia, então resolvi fazer esta postagem porque pode ser que ajude mais alguém.

Primeiro, quero dizer que eu também sou (ou melhor, ainda sou), de certa forma, um jovem pesquisador. Provavelmente, portanto, eu não seja a melhor autoridade para responder a esse tipo de pergunta. Por outro lado, eu me orgulho (e muito, porque dá trabalho!), de ter um bom volume de material produzido em relativamente pouco tempo. São 3 livros publicados em solo nacional e vários artigos em revistas nacionais de qualidade e alguns nas melhores revistas internacionais da minha área.

Então, como eu pesquiso filosofia? Eu confesso que nunca pensei muito sistematicamente sobre isso, mas vou tentar descrever alguns processos que me ajudam bastante.

Ao contrário do que muitas pessoas assumem que seja a maneira correta de pesquisar filosofia, o modo mais produtivo que eu encontrei consiste em começar pela escrita de algumas ideias, tendo alguma literatura por base. Claro, isso requer alguma familiaridade com o assunto com qual você está lidando—mas, veja bem, não requer extenso conhecimento sobre aquele assunto. A partir daí, conforme eu avanço na escrita, procuro novas referências. Frequentemente eu escrevo entre a leitura de um parágrafo e outro, com vários livros e artigos abertos simultaneamente. Pode parecer meio caótico pra quem vê de fora, mas funciona, porque eu nunca deixo uma ideia fugir—coisinhas esquivas que elas são.  Aliás, eu escrevo com pressa, mas edito devagar. Assim eu descobri uma maneira de botar as ideias em tela o mais rápido possível e voltar para poli-las cuidadosamente no processo de reescrita. Isso envolve, por exemplo, escrever com poucos adjetivos e advérbios. Esses começam a aparecer mais apenas na edição.

Eu digo que esse processo é contrário ao que muitas pessoas assumem que seja o certo, porque elas preferem começar recolhendo um grande volume de referências literárias para escrever apenas depois desse processo potencialmente infinito. Eu não acho que isso funcione, porque, quando você se depara com um volume imenso de literatura (ainda mais na filosofia, cujos problemas têm um quê de perenialidade), a tendência é você ficar paralisado. Acho que a escrita sempre envolve risco, e eu prefiro correr o risco de ser ignorante sobre o que algum(a) filósofo(a) disse sobre algo do que o risco de não escrever o que acredito ser interessante e original. Posso estar errado sobre a originalidade, mas por isso mesmo que acho crucial abrir meu trabalho em construção para o maior número de pessoas possível. Ou seja—e isso é especialmente importante se você está inseguro com a qualidade do seu trabalho—tente submetê-lo para audiências qualificadas o maior número de vezes. Por isso que é essencial ter contatos interessados nos mesmos assuntos que você. Essas pessoas, se dispostas a lhe ajudar e a ler o seu trabalho, podem qualificar muito seu texto pela apresentação de objeções e sugestões de leitura e de escrita.

Escrita é um processo mentalmente exaustivo, então o que eu descobri é que, quando o cansaço é sobrepujante, é melhor tirar um ou dois dias de folga da escrita do que ficar batendo cabeça em vão. Quando fico assim, faço outras coisas, por exemplo, leio sem escrever nada, apenas tomando notas breves no próprio material de leitura. Aliás, quando o assunto é leitura, é imprescindível que você tenha um sistema de cores para destacar o que é importante em diferentes graus. Isso vai facilitar na hora de escrever porque já vai estar marcado o que é mais importante, ou errado, ou um possível ponto de objeção, etc. Um sistema que só usa o sublinhado e a marcação de uma mesma cor não te permite discriminar porque você achou aquele trecho importante quando leu pela primeira vez.

Uma questão óbvia, mas que nem sempre todo mundo fala sobre: a importância de ter um ambiente adequado para trabalho. Com isso quero dizer: um ambiente sobre o qual você tem algum controle por pelo menos algumas horas. Não precisa ser uma biblioteca maravilhosa digna de universidade gringa, basta que você consiga fazer o que é preciso sem ter que parar para fazer outras coisas no processo. Ajuda se for um ambiente familiar para você.

Uma dica preciosíssima: sempre releia o que você escreveu antes de recomeçar a escrever. Ou seja, se eu escrevi 10 páginas de um artigo, antes de avançar, eu leio essas 10 páginas novamente (é um pouco cansativo—mas um bom indicador de que um trabalho está pronto para ser submetido é quando você não aguenta mais olhar pra cara dele). Nesse processo eu invariavelmente acho um erro ou alguma ideia que pode ser melhor escrita. O trabalho sempre melhora. Esta postagem mesmo eu já reli umas 8x (agora 9x).

Outra coisa importante é aproveitar o fluxo de escrita. Todo mundo demora um pouco pra pegar no tranco, mas quando você pega, é bom continuar. E, se tiver que parar, nunca pare com o fim de um assunto (seção ou capítulo). Ou seja, procure parar quando estiver começando um novo assunto. Tenha pelo menos algumas ideias esboçadas para, quando retomar a escrita no dia seguinte, já tiver por onde ir.

Uma última coisa absolutamente essencial: tenha um organizador de referências. Eu uso Mendeley, porque ele tem um plugin do Word que poupa muito—não, peraí, ele poupa imensamente muito o meu tempo com a tarefa ingrata que é formatação de referências. Mas existem outros programas, como o Zotero e o Endnote. Se você escreve em LaTeX (eu raramente uso fórmulas, então não uso—mas aprecio muito a lindeza de um pdf gerado por LaTeX), então você não precisa dessa dica  porque provavelmente usa Bibtex.  

--Esse post continua no post do dia 06/06--