Competi recentemente no Campeonato Nacional de Powerlifting (organizado pela Confederação Brasileira de Levantamentos Básicos, filiada à IPF) e tive um desempenho muito acima do que eu esperava, muito melhor do que na competição anterior (Campeonato Baiano de 2025)—e, ainda assim, muito longe do pódio. Mas isso é o de menos, pois eu não subi no tabalado almejando pódio, quebra de recorde, nada disso—mas sim buscando mais experiência e, se possível, melhores marcas pessoais.
Na competição temos que fazer três movimentos, os chamados levantamentos básicos: agachamento, supino e levantamento terra. Temos três tentativas para cada movimento, que são avaliados dentro de certos parâmetros muito específicos, e, uma vez que escolhemos um peso de abertura em cada movimento, só podemos repetir esse peso, em caso de falha, ou aumentar a carga (ou seja, se ficou difícil na primeira pedida, a tendência é só piorar). No ano passado, em competição, eu havia validado 180kg de agachamento, 102,5kg de supino e 220kg de levantamento terra. Meu total era, portanto, 502,5kg. Dessa vez, em fevereiro, consegui agachar com 192,5kg (alimentando o sonho dos 200kg até o final do ano), supinar 112,5kg e levantar 235kg do chão. Meu novo total é 540kg. Não é muito, objetivamente falando, mas eu sou filósofo antes de ser atleta—e, na rarefeita intersecção entre filósofos e levantadores de peso, estou bem posicionado. Além disso, meu plano de fazer 550kg no Campeonato Baiano deste ano está bastante factível (isso se eu continuar ganhando força).
Mas não é sobre os detalhes técnicos e de preparação que eu quero falar. Eu comentei sobre treino, repetição e autoconhecimento corporificado em outras postagens. Eu estou interessado em outro âmbito da experiência atlética.
Na competição temos que fazer três movimentos, os chamados levantamentos básicos: agachamento, supino e levantamento terra. Temos três tentativas para cada movimento, que são avaliados dentro de certos parâmetros muito específicos, e, uma vez que escolhemos um peso de abertura em cada movimento, só podemos repetir esse peso, em caso de falha, ou aumentar a carga (ou seja, se ficou difícil na primeira pedida, a tendência é só piorar). No ano passado, em competição, eu havia validado 180kg de agachamento, 102,5kg de supino e 220kg de levantamento terra. Meu total era, portanto, 502,5kg. Dessa vez, em fevereiro, consegui agachar com 192,5kg (alimentando o sonho dos 200kg até o final do ano), supinar 112,5kg e levantar 235kg do chão. Meu novo total é 540kg. Não é muito, objetivamente falando, mas eu sou filósofo antes de ser atleta—e, na rarefeita intersecção entre filósofos e levantadores de peso, estou bem posicionado. Além disso, meu plano de fazer 550kg no Campeonato Baiano deste ano está bastante factível (isso se eu continuar ganhando força).
Mas não é sobre os detalhes técnicos e de preparação que eu quero falar. Eu comentei sobre treino, repetição e autoconhecimento corporificado em outras postagens. Eu estou interessado em outro âmbito da experiência atlética.
Horas antes de subir no tabalado para o primeiro agachamento, eu pensava, em um loop, algo mais ou menos assim: eu poderia estar tranquilamente em casa agora. Ou até mesmo treinando, mas sem avaliação de árbitros, audiência, risco de falhar e complicar minha vida. Passar vergonha. Se eu errasse as três tentativas de um mesmo lift (e meu medo maior é o supino, movimento em que eu sinto maior variação de qualidade de execução), eu receberia um bomb out. Ou seja, eu estaria eliminado da competição e nenhuma outra marca valeria. Bomb out. Essas palavras ecoavam na minha consciência, e um segundo pensamento martelava na minha mente: por que caralhos eu fui inventar de fazer isso?!
Mas aí eu fui chamado para meu primeiro agachamento. Meu treinador e eu decidimos, conservadoramente, abrir com 175kg para tirar a pressão da primeira pedida. E algo muito surpreendente aconteceu.
Os pensamentos ansiosos silenciaram no momento em que eu vi a barra pronta com a minha carga. Quando eu de fato me posicionei no tabalado, pronto para sacar a barra, o mundo também desapareceu. Nesse momento, a atenção se volta apenas para duas coisas: a resistência da barra contra a qual eu devo lutar em seguida e os comandos do arbítrio central (que anuncia quando se pode agachar e guardar a barra—qualquer antecipação a esses comandos invalidaria o lift).
Nas palavras do nadador olímpico Pablo Morales—que eu conheci no livro brilhante de Hans Ulrich Gumbrecht, Elogio da Beleza Atlética—eu me senti perdido na intensidade da concentração. A concentração é tamanha, em concorrência com a tensão que a situação ocasiona, que o momento presente ganha subitamente a devida imensidão; o aqui e agora é nitidamente tudo. Claro, o aqui e agora sempre é tudo, mas nós nos habituamos a silenciar esse fato inconveniente para viver de modo funcional no dia a dia normal. No tablado, é diferente. Não apenas a atenção isola o que não deve interferir naquele momento, direcionando a potencialidade física do atleta apenas para a execução do movimento, mas o foco é tanto que nossa convenção de separar os objetos do mundo em entidades discretas vai para o espaço. A barra perde a sua singularidade ontológica e se dilui na dificuldade da tarefa em questão. Realizar o movimento, como no treino. Mas, talvez mais notavelmente, a própria sensação de eu, que é onipresente na vida cotidiana, desaparece. Absorto no momento presente, absorto na situação fisicamente extenuante—a sensação, eu ouvi dizer, é basicamente a mesma de uma prática meditativa.
Mas aí eu fui chamado para meu primeiro agachamento. Meu treinador e eu decidimos, conservadoramente, abrir com 175kg para tirar a pressão da primeira pedida. E algo muito surpreendente aconteceu.
Os pensamentos ansiosos silenciaram no momento em que eu vi a barra pronta com a minha carga. Quando eu de fato me posicionei no tabalado, pronto para sacar a barra, o mundo também desapareceu. Nesse momento, a atenção se volta apenas para duas coisas: a resistência da barra contra a qual eu devo lutar em seguida e os comandos do arbítrio central (que anuncia quando se pode agachar e guardar a barra—qualquer antecipação a esses comandos invalidaria o lift).
Nas palavras do nadador olímpico Pablo Morales—que eu conheci no livro brilhante de Hans Ulrich Gumbrecht, Elogio da Beleza Atlética—eu me senti perdido na intensidade da concentração. A concentração é tamanha, em concorrência com a tensão que a situação ocasiona, que o momento presente ganha subitamente a devida imensidão; o aqui e agora é nitidamente tudo. Claro, o aqui e agora sempre é tudo, mas nós nos habituamos a silenciar esse fato inconveniente para viver de modo funcional no dia a dia normal. No tablado, é diferente. Não apenas a atenção isola o que não deve interferir naquele momento, direcionando a potencialidade física do atleta apenas para a execução do movimento, mas o foco é tanto que nossa convenção de separar os objetos do mundo em entidades discretas vai para o espaço. A barra perde a sua singularidade ontológica e se dilui na dificuldade da tarefa em questão. Realizar o movimento, como no treino. Mas, talvez mais notavelmente, a própria sensação de eu, que é onipresente na vida cotidiana, desaparece. Absorto no momento presente, absorto na situação fisicamente extenuante—a sensação, eu ouvi dizer, é basicamente a mesma de uma prática meditativa.
O alívio de validar o primeiro agachamento, e depois o segundo (185kg) e depois o terceiro (192,5kg) não diminuiu o efeito de perdição na intensidade da concentração que antecedeu cada movimento subsequente. Mas eu só me acalmei mesmo quando validei meu primeiro supino (105kg)—apesar de ter respirado errado ao ouvir o comando do árbitro, o que elevou consideravelmente a dificuldade desse movimento. Com isso, eu sabia que, salvo algo muito excepcional, eu já não receberia um bombout, pois confio quase cegamente no meu levantamento terra. É um movimento que eu executo de modo quase intuitivo, mais na força bruta do que na técnica e, para minha alegria, consegui validar todos os levantamentos e confirmar uma nova marca pessoal na terceira pedida (235kg). Antes dos terras, havia validado todos os supinos, o que me conferiu nove movimentos válidos de nove tentativas, para minha grata surpresa.
É possível que tudo isso que eu descrevi aqui tenha sido envernizado por um deslumbramento de iniciante. Talvez depois de competir outras vezes, essa sensação perca o brilho e a tensão da competição se torne menos fascinante. Mas eu acredito genuinamente que há uma dimensão estética fundamental nesse tipo de prática, algo que perdemos de vista na vida normal (talvez, pro nosso próprio bem). Há algo de precioso e raro na prática atlética competitiva, porque não é possível ignorar a imensidão do momento quando você sobe no tablado, ou ouve o tiro de largada, ou entra no ringue (eu apenas posso imaginar, é claro—ainda não me aventurei nesses domínios, hic sunt dracones).
É possível que tudo isso que eu descrevi aqui tenha sido envernizado por um deslumbramento de iniciante. Talvez depois de competir outras vezes, essa sensação perca o brilho e a tensão da competição se torne menos fascinante. Mas eu acredito genuinamente que há uma dimensão estética fundamental nesse tipo de prática, algo que perdemos de vista na vida normal (talvez, pro nosso próprio bem). Há algo de precioso e raro na prática atlética competitiva, porque não é possível ignorar a imensidão do momento quando você sobe no tablado, ou ouve o tiro de largada, ou entra no ringue (eu apenas posso imaginar, é claro—ainda não me aventurei nesses domínios, hic sunt dracones).