Competi recentemente no Campeonato Nacional de Powerlifting (organizado pela Confederação Brasileira de Levantamentos Básicos, uma organização filiada à IPF) e tive um desempenho muito acima do que eu esperava, muito melhor do que na competição anterior (Campeonato Baiano de 2025)—e, ainda assim, muito longe do pódio. Mas isso é o de menos, pois eu não subi no tabalado almejando pódio, quebra de recorde, nada disso—mas sim buscando mais experiência e, se possível, melhores marcas pessoais.
Neste esporte, temos que fazer três movimentos (os chamados levantamentos básicos): agachamento, supino e levantamento terra. Cada tentativa é avaliada dentro de certos parâmetros muito específicos—o agachamento tem que quebrar a paralela, a barra deve pausar no peito durante o supino, etc. Temos três tentativas para cada movimento, e, uma vez que escolhemos um peso de abertura em cada movimento, só podemos repetir esse peso, em caso de falha, ou aumentar a carga. Ou seja, se ficou difícil na primeira pedida, a tendência é só piorar. No ano passado, em competição, eu havia validado 180kg de agachamento, 102,5kg de supino e 220kg de levantamento terra. Meu total era, portanto, pouco mais de 500kg. Agora, após o campeonato nacional, é 540kg. Não é muito, objetivamente falando, mas eu sou filósofo antes de ser atleta—e, na rarefeita intersecção entre filósofos e levantadores de peso, estou bem posicionado. Além disso, meu plano de fazer 550kg no Campeonato Baiano deste ano está bastante factível (isso se eu continuar ganhando força).
Mas não é sobre os detalhes técnicos e de preparação que eu quero escrever. Eu comentei sobre treino, repetição e autoconhecimento corporificado em outras postagens. Eu estou interessado em outro âmbito da experiência atlética.
Neste esporte, temos que fazer três movimentos (os chamados levantamentos básicos): agachamento, supino e levantamento terra. Cada tentativa é avaliada dentro de certos parâmetros muito específicos—o agachamento tem que quebrar a paralela, a barra deve pausar no peito durante o supino, etc. Temos três tentativas para cada movimento, e, uma vez que escolhemos um peso de abertura em cada movimento, só podemos repetir esse peso, em caso de falha, ou aumentar a carga. Ou seja, se ficou difícil na primeira pedida, a tendência é só piorar. No ano passado, em competição, eu havia validado 180kg de agachamento, 102,5kg de supino e 220kg de levantamento terra. Meu total era, portanto, pouco mais de 500kg. Agora, após o campeonato nacional, é 540kg. Não é muito, objetivamente falando, mas eu sou filósofo antes de ser atleta—e, na rarefeita intersecção entre filósofos e levantadores de peso, estou bem posicionado. Além disso, meu plano de fazer 550kg no Campeonato Baiano deste ano está bastante factível (isso se eu continuar ganhando força).
Mas não é sobre os detalhes técnicos e de preparação que eu quero escrever. Eu comentei sobre treino, repetição e autoconhecimento corporificado em outras postagens. Eu estou interessado em outro âmbito da experiência atlética.
Horas antes de subir no tabalado para fazer o primeiro agachamento, meus pensamentos estavam em loop. Algo mais ou menos assim: eu poderia estar tranquilamente em casa agora. Ou até mesmo treinando, mas sem avaliação de árbitros, audiência, risco de passar vergonha. Se eu errasse as três tentativas de um mesmo lift, eu receberia um bomb out. Ou seja, eu estaria eliminado da competição e nenhuma outra marca valeria. Bomb out. Meses de preparação jogados fora. Não era exatamente isso que eu pensava. Na verdade, era algo como: por que caralhos eu fui inventar de fazer isso?!
Mas aí eu fui chamado para meu primeiro agachamento. Meu treinador e eu decidimos, conservadoramente, abrir com 175kg para tirar a pressão da primeira pedida (era um peso que eu fazia para duas ou três repetições em treino). Então algo muito surpreendente aconteceu.
Os pensamentos ansiosos silenciaram no momento em que eu vi a barra pronta com a minha carga. Quando eu de fato me posicionei no tabalado, pronto para sacar a barra, o mundo também desapareceu. Nesse momento, a atenção se voltou quase exclusivamente para a resistência da barra contra a qual em seguida começaria uma luta. Além disso, é claro, é preciso se manter atento aos comandos do arbítrio central (que anuncia quando se pode agachar e guardar a barra—qualquer antecipação a esses comandos invalidaria o lift).
Nas palavras do nadador olímpico Pablo Morales—que eu conheci no livro brilhante de Hans Ulrich Gumbrecht, Elogio da Beleza Atlética—eu me senti perdido na intensidade da concentração.
É preciso destrinchar essa expressão. A ideia de estar perdido, a meu ver, faz sentido do seguinte modo: em um contexto atlético competitivo, a concentração é tão intensa que o momento presente torna-se subitamente imenso; o aqui e agora é nitidamente tudo. Claro, o aqui e agora sempre é tudo, mas nós nos habituamos a silenciar esse fato inconveniente para viver de modo funcional no dia a dia normal. No tablado, é diferente. Não apenas a atenção isola o que não deve interferir naquele momento, direcionando a potencialidade física do atleta apenas para a execução do movimento; mas o foco é tanto que nossa convenção de separar os objetos do mundo em entidades discretas vai para o espaço. A barra perde a sua singularidade ontológica e se dilui na dificuldade da tarefa em questão. Realizar o movimento, como no treino. Mas, talvez mais notavelmente, a própria sensação de eu, que é inescapável na vida cotidiana, desaparece. Eu me senti genuinamente absorto no momento presente—a sensação, eu ouvi dizer, é basicamente a mesma de uma prática meditativa.
Mas aí eu fui chamado para meu primeiro agachamento. Meu treinador e eu decidimos, conservadoramente, abrir com 175kg para tirar a pressão da primeira pedida (era um peso que eu fazia para duas ou três repetições em treino). Então algo muito surpreendente aconteceu.
Os pensamentos ansiosos silenciaram no momento em que eu vi a barra pronta com a minha carga. Quando eu de fato me posicionei no tabalado, pronto para sacar a barra, o mundo também desapareceu. Nesse momento, a atenção se voltou quase exclusivamente para a resistência da barra contra a qual em seguida começaria uma luta. Além disso, é claro, é preciso se manter atento aos comandos do arbítrio central (que anuncia quando se pode agachar e guardar a barra—qualquer antecipação a esses comandos invalidaria o lift).
Nas palavras do nadador olímpico Pablo Morales—que eu conheci no livro brilhante de Hans Ulrich Gumbrecht, Elogio da Beleza Atlética—eu me senti perdido na intensidade da concentração.
É preciso destrinchar essa expressão. A ideia de estar perdido, a meu ver, faz sentido do seguinte modo: em um contexto atlético competitivo, a concentração é tão intensa que o momento presente torna-se subitamente imenso; o aqui e agora é nitidamente tudo. Claro, o aqui e agora sempre é tudo, mas nós nos habituamos a silenciar esse fato inconveniente para viver de modo funcional no dia a dia normal. No tablado, é diferente. Não apenas a atenção isola o que não deve interferir naquele momento, direcionando a potencialidade física do atleta apenas para a execução do movimento; mas o foco é tanto que nossa convenção de separar os objetos do mundo em entidades discretas vai para o espaço. A barra perde a sua singularidade ontológica e se dilui na dificuldade da tarefa em questão. Realizar o movimento, como no treino. Mas, talvez mais notavelmente, a própria sensação de eu, que é inescapável na vida cotidiana, desaparece. Eu me senti genuinamente absorto no momento presente—a sensação, eu ouvi dizer, é basicamente a mesma de uma prática meditativa.
O alívio de validar o primeiro agachamento, e depois o segundo (185kg) e depois o terceiro (192,5kg) não diminuiu o efeito de perdição na intensidade da concentração. Cada movimento foi encarado com o mesmo tipo de encanto e foco. Mas eu só me acalmei mesmo quando validei meu primeiro supino (105kg)—apesar de ter respirado errado ao ouvir o comando do árbitro, o que elevou consideravelmente a dificuldade desse movimento. Com isso, eu sabia que, salvo algo muito excepcional, eu já não receberia o tão temido bomb out, pois confio quase cegamente no meu levantamento terra. É um movimento que eu executo de modo quase intuitivo, mais na força bruta do que na técnica e, para minha alegria, consegui validar todos os levantamentos e confirmar uma nova marca pessoal na terceira pedida (235kg). Antes dos terras, havia validado todos os supinos, o que me conferiu nove movimentos válidos de nove tentativas, para minha grata surpresa—eu que temia um bombout.
É possível que tudo isso que eu descrevi aqui tenha sido envernizado por um deslumbramento de iniciante. Talvez depois de competir outras vezes, essa sensação perca o brilho, e a tensão da competição se torne menos fascinante. Mas eu acredito genuinamente que há uma dimensão estética fundamental nesse tipo de prática, algo que perdemos de vista na vida normal (talvez, pro nosso próprio bem). Há algo de precioso e raro na prática atlética competitiva, porque não é possível ignorar a imensidão do momento quando você sobe no tablado, ou ouve o tiro de largada, ou entra no ringue (eu apenas posso imaginar, é claro—ainda não me aventurei nesses domínios, hic sunt dracones).
É possível que tudo isso que eu descrevi aqui tenha sido envernizado por um deslumbramento de iniciante. Talvez depois de competir outras vezes, essa sensação perca o brilho, e a tensão da competição se torne menos fascinante. Mas eu acredito genuinamente que há uma dimensão estética fundamental nesse tipo de prática, algo que perdemos de vista na vida normal (talvez, pro nosso próprio bem). Há algo de precioso e raro na prática atlética competitiva, porque não é possível ignorar a imensidão do momento quando você sobe no tablado, ou ouve o tiro de largada, ou entra no ringue (eu apenas posso imaginar, é claro—ainda não me aventurei nesses domínios, hic sunt dracones).